A Publicidade Positiva lançou um questionamento interessante: o que você faria se vivesse numa “ilha de mercado”. Por “ilha de mercado”, ela quis dizer algo como um lugar onde você só teria utilidade se produzisse alguma coisa útil por si só: seja serviço, entreterimento ou bem material. Ou seja, se não existissem empregos burocráticos, você teria com o que trabalhar? Parece meio injusta essa questão, tendo em vista que são muitas as pessoas que fazem carreira justamente da necessidade da sociedade de se juntar em organizações – conseqüentemente criando a necessidade de se administrar essas organizações. Mas é interessante a pergunta, até porque pessoas têm um viés um pouco pessimista quanto a empregos na chamada “área meio”.
Douglas Adams
Esta pergunta me leva até Douglas Adams, autor do livro O Restaurante no fim do universo, da série O guia do mochileiro das galáxias. Nesta obra de comédia e ficção científica, o protagonista vai parar numa nave composta por “exilados”: eram na verdade pessoas convencidas de que seu planeta natal estaria condenado, e que deveriam deixá-lo o quanto antes. Os habitantes deste planeta aplicaram-lhe tal golpe porque não suportavam estas pessoas: produtores de TV estressados,vendedores de apólices de seguros, gerentes de RH, executivos de relações públicas, consultores executivos. Parafraseando o livro:
“A idéia [na verdade, a maneira como eles foram convencidos de que deveriam entrar todos na mesma nave e partir] foi de que na primeira nave, a nave “A”, iriam todos os líderes brilhantes, os cientistas, os grandes artistas, sabe, todos que produzem algo; na terceira nave, a nave “C”, iriam todas as pessoas que fazem o trabalho pesado, aqueles que fazem ou constroem coisas; e na nave “B”, que é a nossa, iriam todos os outros, os intermediadores, entende?”
Duas grandes ironias terminam esta parte da história: [spoiler!!!] o planeta natal deles foi extinto numa grande virose causada por uma infecção de ouvido (os limpadores de orelhões embarcaram na nave B); e o protagonista descobre que a raça humana surgiria desses exilados, e não de primatas nativos da Terra (ou seja, seríamos descendentes de “intermediadores”). É uma história hilária, e muito intrigante.
A minha parte nesta história
Eu, por trabalhar com a burocracia do governo, provavelmente teria embarcado na nave B. E se fosse para viver numa ilha de mercado, eu viveria de… sei lá… escrever histórias de RPG? Seria um blogueiro? A verdade é que eu sempre quis me posicionar como “intermediário”. Afinal, eu sempre quis ser um conciliador: gosto de carreiras como diplomata, agente de artistas, consultor ou conselheiro de reis. Será que eu teria espaço no mundo sem limpadores de telefone? Tem gente que gosta de me chamar de inútil e dá até pra entender entendo o porquê.
Acontece que nesta pergunta eu fico preso sem resposta. Primeiro, porque o questionamento parece exigir que a pessoa tenha uma identidade. Soa como “você é aquilo que você faz”: Eu trabalho no governo para que pessoas possam trabalhar (Intermediação de mão de obra e qualificação profissional); O questionamento também soa como “as pessoas lhe reconhecem pelo quê?”: No meu caso, talvez pela minha paciência para lidar com pessoas, ou por eu ser um nerd esquisito.
Segundo porque os exemplos de funções dados – o homem que é um faz tudo, os garotos dançarinos – são de pessoas que justamente precisam de algum ponto de referência para produzirem. Esse homem provavelmente faz tudo porque foi assim que ele conseguiu arrumar dinheiro por um bom tempo, ou foi assim que ele passava o tempo livre dele. Os garotos da periferia fazem parte de um programa social, só por isso já dá pra se imaginar que a perspectiva deles para com a sociedade está manchada pela vida na favela, e eles precisam reafirmar que há potencial neles, para então criarem seus verdadeiros obetivos e seguir adiante. A triste verdade é que dificilmente muitos deles vão de fato viver de dança, ou arte grafitada, ou de bicos,e ser feliz com isso. De novo voltando a mim, eu fiz Tae kwon do por um ano… natação… joguei muito RPG e aprendi a fuçar em várias funções no computador. Será que eu conseguiria me destacar em alguma delas? Não sei, e o fato de eu ter de estudar e trabalhar jamais me permitiria tentar a vida com estas atividades.
Voltando à pergunta
Meu ponto aqui é dizer que a idéia é interessante, e ela te leva a se empolgar com atividades extra-curriculares, mas ela também é um pouco cruel com as pessoas. Se por um lado ela incentiva você a querer saber fazer alguma coisa em especial, por outro ela desvaloriza seu trabalho, caso ele seja algo como cooperar numa organização. E se você vive de preencher dados regularmente numa empresa de 8 da manhã as 6 da tarde e depois estuda de 7 às 11? A que horas você vai aprender a ser expert em pesca ou decoração? Como vai fazer pra viver na ilha?
Douglas Adams com seu livro dá a entender que pessoas assim podem até parecer inútéis, mas a humanidade é feita de intermediadores, e sem eles o nosso mundo acabaria por pura falta de organização.
Então, se você se incomodou com esta pergunta, faça alguma atividade extra: pratique uma atividade física, como ciclismo ou artes marciais; leia um livro por mês; assista a um filme no cinema por semana; descubra o nome e escute a discografia de um cantor por vez; pergunte a sua mãe ou o seu pai como pode ajudar a melhorar sua casa. Ou então, sinceramente, faz aquilo que te der na telha no seu tempo livre, sem preocupações e procurando apenas descansar! Você não precisa ter um hobby definido. Assim algum dia vai perceber que mesmo assim você é uma pessoa tão única quanto Einstein ou Mozart. ;)
Até!
PS.: Ou então vai escrever sua monografia, safado!