O Festival Indie é uma série de filmes que, na base da tentativa e erro, você encontra de verdadeiras porcarias a potenciais clássicos. Exemplo deste segundo caso é o filme A onda (Die Welle, no original), do diretor Dennis Gansel.
O filme não é original, até porque é baseado em um livro (homônimo, do autor Todd Strasser) que já foi filmado antes. Mas, pelo que eu li (e ouvi de um amigo meu que já assistiu a versão anterior) o primeiro filme era curto e na verdade era um programa especial de Televisão. E esta versão atual tem uma ironia a mais, que é o fato de ser um filme alemão.
O livro, por sua vez, é baseado em um experimento real, a Terceira Onda, que um professor realizou com seus alunos na década de 60, quando estes lhe questionaram por que os alemães teriam sido tão ignorantes com relação aos absurdos nazistas. A história real é muito velada, com poucos relatos contemporâneos e alguns artigos e livros sendo escritos apenas anos depois (inclusive pelo próprio professor). A história por si só é impressionante, mas basta assistir um filme para sentir arrepios na espinha.
O filme ensina claramente como os detalhes criam um cenário macro aos poucos, que consome as pessoas, impossibilitando-as de ficarem indiferentes ao que acontece. Em uma semana, os eventos vão surgindo pouco a pouco, e subitamente todos estão reagindo aos eventos. Outro “detalhe” sobre “detalhes” no filme é uma coisa que eu percebo muito, falo pouco, e quase todos ignoram: quando você despreza os valores “micros”, e cresce, você passa a considerar “micro” coisas que para outras pessoas são “macro”. Se você acha que baixar arquivos na Internet é bobagem, porque crime contra direitos autorais não são levados a sério… por favor não se candidate a nada no Brasil. Se você acha que fumar maconha não é errado porque não prejudica ninguém… não vá trabalhar em empresas que precisam de licenças ambientais.
Se eu conhecesse esta história na época em que estudava memética, com certeza teria sido este meu laboratório. Aplicar cada um dos conceitos de meme, memeplex, alergia genética, mecanismos de proteção. Se eu tivesse com mais do que um horário de almoço de tempo livre, eu faria essa análise hoje. Mas é um exercício marcante: leia sobre memética na Wikipédia mesmo, e depois assista o filme. Marcante!
Isto que eu falo vai além da proposta inicial do filme (esta é a proposta dos meus posts entitulados "Depois de", aliás). São impressões que eu tirei, provavelmente porque refletem questionamentos meus. Mas o que são os clássicos, se não aquelas artes que causam impressões diversas em diversas pessoas?


5 comentários
Comentários feed para este artigo
Dezembro 4, 2010 às 09:00
Javier
Bom dia, alguém pode me tirar uma dúvida, no ano 1984 eu assisti na Globo um filme chamado “A Onda” que achei ótimo com o mesmo argumento: um professor de história que organizava seus alunos para lhe explicar como o nacismo teve tanto sucesso… Mas este filme que está se publicitando não é mesmo, este foi filmado em 2008.
Se alguém pode me esclarecer, agradecido.
Maio 13, 2011 às 17:58
Anônimo
A história do filme é a mesma, porém, este mais atual de 2008, foi refilmado e com um novo e na minha opinião, bom elenco.
Obrigado,
Tchau,
Janeiro 4, 2011 às 09:14
Aos quatro ventos de 2010 « Aos quatro ventos
[...] Depois do filme: A onda, de Dennis Gansel Setembro, 2009 1 comentário 3 [...]
Março 1, 2011 às 21:25
mitch
Assisti também a primeira versão em 1984 na globo. Tinha 15 anos de idade, e senti pela primeira vez a força da manipulação para atingir objetivos de poder através da lavagem cerebral a auto sugestão , baseada em argumentos sem fundamento. na prática. Devemos refletir muito seriamente sobre o poder da manipulação psicológica e emocional sobre as pessoas, que em sua absoluta maioria é formada por sujeitos sem crítica pessoal e social. Penso o mesmo a respeito das religiôes e o que ela prega nesses dois recentes milênios… É incrível como os dois sistemas se identificam.
Maio 13, 2011 às 18:03
Anônimo
O filme é realmente bom. Só achei injusto o professor de história ser preso, mas é uma responsabilidade que foi posta em cima dele, então não há o que discutir. O professor tenta mais ou menos, jogar uma turma contra a outra, formando um grupo completamente organizado e fechado entre si.
Enfim, acho que o professor não queria deixar aquilo ir longe demais, mas os alunos se deixaram envolver muito e muito rápido pela “A Onda”.