Está muito claro pra mim que a minha viagem para Cingapura mudou radicalmente minha visão de mundo. Não só pela viagem ao exterior, que foi a minha primeira (e ainda por cima eu fui parar lá na Ásia), nem só pela proposta da visita, que foi um trabalho de aprendizado sobre como funciona outro governo. Cingapura virou uma referência para mim, e eu ainda estou tentando entender o que isto significa.

Lee Kuan Yew, o super ministro desta cidade-estado, anunciou recentemente sua saída do cargo (criado exclusivamente para ele, diga-se de passagem) de Ministro Sênior. Claro que, como os comentário da Economist colocam, o homem não deixará a agenda do país acontecer sem a sua influência. Acreditar em sua saída é como acreditar que o Lula saiu da Presidência da República brasileira. Mas cabe aproveitar este momento para refletir. Meu amigo escritor do Matizes Escondidos me enviou estas imagens maravilhosas da Foreing Policy, que rasga alguns elogios sobre o feito de Cingapura durante o governo de Lee Kwan Yew.

São as maravilhas da engenharia, conquistadas a ferro e fogo (de fornalhas, não de armas). Não só engenharia civil, mas também humana. A sociedade ali parece ter sido construída, tamanha a capacidade do governo em incentivar as pessoas e planejar suas políticas, fazendo seus habitantes se esforçarem para conseguir seus objetivos pessoais. É um povo que se levantou de uma situação de miséria, analfabetismo, falta de lares e sem visão de um futuro.

Um brasileiro ali sempre se assusta: as construções cinematográficas; o verde espalhado por toda a cidade; a organização dos meios de transporte público (especialmente o aeroporto); o desempenho do país em diversos indicadores internacionais… tudo isto causa imensa vergonha alheia de ter a história política e econômica que temos.

Esta sequência de espantos termina quando os brasileiros olham para a cultura dos Cingapurianos. Tudo começa no futebol, ao saber que a seleção de lá é uma das piores da Ásia. Ufa! Depois um passeio no Hooters e percebe-se que ter brasileiras ao seu redor é insuperável. Depois das festas, vem a política. “Aquilo lá é um ditadura! Logo, nada que eu vi ali supera meu país.” É a reação mais comum ao descobrir detalhes sobre a dinâmica não tão democrática do governo. Chamar Cingapura de ditadura é tão inocente quanto acreditar na propaganda deles de que “nossa democracia é ter o país com a melhor qualidade de vida do mundo”, além de ser uma tremenda chance de aprender.

Por fim, o brasileiro encontra uma constatação, ou uma mera sensação, de superficialidade na cultura deles. O futebol, as festas, o verde, a história… tudo parece artificial nas visões de um brasileiro. Nós somos um povo extremamente miscigenado. Um poço de religiões, histórias, lutas, ambições, políticas, línguas, como nenhuma outra no mundo conhecido (por nós). Enquanto isto, Cingapura era uma única ilha portuária, não muito utilizada antes da chegada dos ingleses no século dezoito. Apesar de ser uma nação cosmopolita, porque possui heranças indianas, chinesas, malaias e inglesas, seus povos não se miscigenaram. É um território minúsculo, do tamanho de Belo Horizonte + Betim. E é um estado de míseros 46 anos de independência, mais uns 100 anos de efetiva colonização. Comparar o Brasil, com seus quase 200 anos de independência, mais 300 de colonização, mais o tempo de colonização indígena, é como comparar nossa história com a do Oriente Médio, e seus milênios de misturas.

O que o brasileiro não perceberá é a delicadeza de quem construiu as coisas do nada. O governo, a despeito das críticas a sua formação autoritária, efetivamente trouxe as estratégias mais modernas de planejamento urbano para o país, e dá diversas oportunidades para a cultura se firmar: os parques, as áreas de diversão, a facilidade de acesso a escolas e a museus, os ambientes de trabalho, e a Internet*.

Cabe ao povo de lá começar a criar suas próprias tradições.

Cingapura, neste ponto, lembra-me de Brasília. Estive lá por uma semana, e o que reparei em BSB foi a mesma sensação que tive lá na ilha-país: é um lugar construído, artificial. Nossa capital não é miscigenada, mas não deixar de ser cosmopolita. E, após cinquenta anos, procura seu espaço cultural próprio: suas contribuições para o rock brasileiro, bem como suas referências à cultura mameluca são bons exemplos, assim como com os bairros étnicos ou o Clarke Quey cingapurianos.

Em resumo, acusar Cingapura de ser um lugar que só tem shoppings me parece o mesmo que dizer que Rio de Janeiro só tem mar. E o mesmo vale para sua democracia, ou a falta dela.

* Antes de criticar às censuras à Internet promovida pelo governo de Cingapura, cabe lembrar que tipo de cesura é esta: sites de pornografia óbvios, como o playboy.com. Algo do nível do Brasil quando proíbe jogos como Carmageddon