
Quando um autor resolve “prever” o futuro para criar um cenário que se passa à frente do nosso tempo, escolhe diversas tendências e modas, e as potencializa até elevar o status de algo típico de nossa “então cultura no futuro”. Claro que qualquer um com bom senso sabe que existem dois poréns: uma pessoa é incapaz de pensar em tudo (quanto mais deduzir as implicações de tudo nos anos que se seguirá); e um autor pega somente os temas que interessam para ele ou para sua obra, nem que seja um mínimo de interesse estético.
Interessante, na minha opinião, notar que todos autores futurólogos que eu conheço subestimam um ponto muito peculiar da nossa cultura atual: os coletivos.
É um conceito bizarro: o “coletivo” a que me refiro é um termo que vi na Revista Superinteressante, que tenta explicar um grupo de pessoas que se unem para fazer algo, seja qual for este algo.
“Retardado! Isto é lógico! Pessoas só conseguem se reunir para fazer algo! Nem que seja tomar cerveja fim de semana ou ver mulher na porta de casa!”
Calma! O que você não perceberá, se não esperar eu terminar de explicar, é que há pessoas que se reúnem por razões muito inusitadas. Sim, as pessoas sempre se reuniram para beber, ou para fundar uma empresa, ou estudar… mas desde quando as pessoas se reúnem para construir um coelho visível apenas pelo Google Maps? Ou para se fantasiar de zumbis em diversas parte do mundo? A Wikipédia é livre para qualquer um editar. Em BH (território dominado pela República Federativa do Brasil) existe o Ystilingue – espaço de “cooperação solidária entre grupos autônomos e indivíduos” e havia a Lojinha Grátis – cujo nome descreve literalmente a proposta da loja. No site da própria Super tem alguns exemplos de coletivos legais.

Os fãs de anime e mangá das antigas vão se lembrar de como era difícil e polêmico o trabalho dos fansubbers (grupos de legendam e distribuem animes gratuitamente) antes da Internet. Além de legendar os animes, eles tinham que copiar a fita e enviá-la para o fã; e ainda por cima fazer a manutenção dos videocassetes, que não aguentavam produções massificadas por muito tempo.
O que eu gostaria de incluir neste conceito são as novas formas de manifestação social, tais como orçamento participativo, a Ficha Limpa, e o Travel Hospitality Club (também em versões micro, como a comunidade do Orkut Caroneiros de BH/Campo Belo).
Coloco todos estes movimentos junto aos misteriosos coletivos porque ambos são novas formas de se relacionar uns com os outros, e com isso criar algo que tenha um impacto na vida dos demais. E estas formas são novas não porque não existiam antes, mas porque quando informação era uma coisa cara as pessoas não conseguiam atingir grandes grupos, estes grupos nasciam e morriam sem causar impacto ou causando polêmicas demais. A não ser um punhado de exceções, como Jesus ou Lutero.
Mas estes grupos não tem a intenção de serem grandes organizações de terceiro setor ou algo parecido, eles possuem como único e exclusivo objetivo… seu próprio objetivo. Se eles se tornam grandes ou pequenos, se eles ficam ricos ou definham, se são morais ou imorais, pouco importa. O importante é se levantar da cama e fazer aquilo que foi proposto. É o que a Superinteressante chamou de Quarto Setor.

Hoje de manhã quando saí de casa, me deparei com um folhetinho bem ordinário com os dizeres “Você usa o pedaço verde da Rua Nicarágua? Já pensou alguma coisa sobre esse espaço público no meio dos prédios?”, além de alguns desenhos bonitos e slogans como “Tão pertinho de casa”. No bairro Sion existe um… troço errado… com a Rua Nicarágua. Ela termina em um lote vago (tem uma plaquinha com o nome da rua do outro lado, aliás) com um caminho cabuloso e escuro que algumas pessoas usam de atalho para a rua Patagônia (outra bizarrice, diga-se de passagem). O problema é que outras pessoas usam como fumódromo de substância ilegais, rendendo muita insegurança nos arredores. A proposta não está nem elaborada: você entra no blog com o usuário e senha e começa a postar suas idéias lá (acho a idéia até meio arriscada de sofrer vandalismos).

Então, o meu ponto é que antes eu podia até achar que estas coisas “alternativas” só chegavam a mim porque eu sou meio esquisito mesmo, e vivo cercado de gente doida (conheço o cara que inventou a Rola Kitty, e os malucos RPGistas do zine Mamute! além de uns membros do Gato Negro, um povo que quer pintar ciclovias clandestinas em BH…). Mas este folhetinho que chegou a mim vai chegar à minha vizinha que acha meu grupo de RPG barulhento, à república festeira do Paulo, e ao meu síndico que tenta dar tumé via controle de garagem.

Assim sendo, se eu fizesse minha versão de Bladerunner, 1984, Shadowrun, Lain, Minority Report, O demolidor… eu colocaria ao lado das mega-corporações ou super governos, enormes e complexas redes sociais, e poderosos membros do terceiro setor. Além de ter durante a minha história a eterna sensação de que, na verdade, quem manda mesmo no mundo é o discreto e bobinho quarto setor.
Close this world. Enter the nExt.