RESENHA: GOLDIN, Claudia. The Quiet Revolution that Transformed Women’s Employment, Education, and Family. American Economic Review. Pittsburgh, p. 1-21. 02 de maio de 2006. Disponível em: <https://www.nber.org/papers/w11953&gt;. Acesso em: 08 nov. 2018.

Teen Wonder Woman sketch by ChristyTortland

Teen Wonder Woman sketch by ChristyTortland. Creative Commons Attribution-Noncommercial-No Derivative Works 3.0 License.

A “revolução silenciosa” é uma análise da história das mudanças na oferta de trabalho feminina ao longo do século XX nos EUA, que de acordo com a autora Claudia Goldin pode ser dividida em três fases evolucionárias¹ que culminam em uma quarta fase, desta vez revolucionária¹.

Este working paper, publicado por Goldin em 2006 no NBER (National Bureau of Economic Research) se trata de uma espécie de compilação de seus principais artigos que formulam uma convergência entre os estudos de gênero, de economia do trabalho e de história econômica, demonstrando com boas evidências a discriminação da mulher como força de trabalho remunerada e como esse papel coadjuvante feminino tem mudado ao longo do último século. São ao todo oito artigos da própria autora referenciados neste trabalho, o que mostra o quanto ela já se dedicou ao tema.

A autora tem como intenção aparente demonstrar que as mudanças do papel da mulher no mercado de trabalho se mostraram constantes pelo menos até meados dos anos 90, mesmo que nos indicadores mais óbvios isso não seja perceptível, como por exemplo a estagnação da população feminina economicamente ativa a partir do final dos anos 70.

Para tanto, ela descreve que, ao longo do século XX, percebe-se três fases “evolucionárias” nas mudanças da oferta de trabalho feminina, seguidas de uma quarta fase, desta vez chamada de “revolucionária”, que passou a ocorrer a partir do final da década de 70 e possivelmente ainda está ocorrendo.

A primeira fase, a “independência das mulheres trabalhadoras”, que começara mesmo antes do século XX e termina aproximadamente no final da década de 20, é marcada por uma oferta de trabalho feminina tipicamente jovem e solteira, trabalhando em funções manufatureiras ou tipicamente relacionadas com tarefas domésticas, como limpeza e cuidados (enfermagem, governantas, etc.). Ela argumenta que se trata de uma oferta altamente elástica, sensível a variações como a demanda por mão-de-obra masculina e o efeito renda do homem. A mulher buscaria trabalhos temporários, até que se casasse e seu marido fosse capaz de sustentá-la, ou em situações que a família precisasse de muita renda domiciliar. Havia uma característica típica de que as mulheres trabalhadoras desta época tinham pouca educação formal.

Já a segunda fase ocorreu entre a década de 30 e a década de 50, a “redução das amarras para as mulheres casadas na força de trabalho”, é destacada por um aumento da demanda por mão-de-obra feminina, acompanhada de um forte aumento na participação de mulheres casadas no mercado de trabalho, sem haver redução da participação das solteiras. De acordo com Goldin, tratou-se de uma mudança causada principalmente por fatores exógenos, como o grande aumento da escolaridade das mulheres para cerca de 15 anos de estudo (o popular high school  estadunidense), bem como o aumento da demanda por trabalhos mais “apropriados” para mulheres, como funções de secretariado em escritórios e funções clericais em ordens religiosas. Houve também mudanças legislativas e sociais, como o fim da proibição de mulheres casadas de trabalhar e a possibilidade do emprego parcial (part-time work) – percebeu-se um aumento na renda graças à participação das mulheres no emprego, mesmo sem haver um aumento expressivo no número de horas trabalhadas. Além disso, destaca-se a disseminação da linha branca de eletrônicos, como máquinas de lavar roupas, que reduziu a necessidade de horas de dedicação ao trabalho doméstico.

A terceira fase, a última considerada “evolucionária”, inicia-se a partir da década de 50 e perdura até meados da década de 70, sendo considerada a fase das “raízes da revolução”, quando se percebe um grande aumento da participação de trabalho de mulheres mais velhas (45 a 54 anos), seguido de um aumento das mais jovens casadas (25 a 34 anos). Enfim, o trabalho das mulheres casadas passou a ser mais aceitável. A demanda por mão-de-obra fez com que inclusive as horas trabalhadas aumentassem. No entanto, apesar de haver um grande aumento do ingresso das mulheres em cursos de graduação, inicialmente ainda visto como uma forma de se encontrar “bons maridos” – e as decisões do domicílio ainda eram baseadas na liderança do chefe do domicílio, tipicamente o marido. Esses fatores ainda fortaleciam a ideia de que a mulher no mercado de trabalho estava em busca apenas de rendas temporárias, e não de uma carreira a ser perseguida.

A partir de então a autora chega no que ela considera ser a quarta fase, a primeira “revolucionária”, que a autora considera como a “revolução silenciosa”, na qual os indicadores mais destacáveis não mais se alteram como antes, principalmente a evolução da força de trabalho feminina que, ao invés de alcançar os mesmos níveis masculinos, estagna-se ao redor dos 70% ao longo dos anos 70 e 80. Apesar disso, Goldin busca três argumentos para demonstrar que havia uma forte, porém discreta, mudança na oferta de trabalho feminina. Primeiro uma mudança no horizonte, pois as mulheres se tornaram mais capazes de identificar ainda jovens uma boa perspectiva de estarem trabalhando ou não, e assim puderam planejar melhor sua educação. Segundo uma mudança de identidade, na qual as mulheres passaram a se interessar por criar seu “próprio nome” antes de se casar, o que implicava numa carreira profissional, não apenas em trabalho pelo rendimento. Enfim, com uma estrutura bem melhor para ingressar no mercado, com boas qualificações e expectativas, elas puderam receber retornos melhores dos seus empregos, buscando inclusive ocupar profissões que até então eram tipicamente masculinas, como advocacia e medicina.

Assim sendo, a tese que Goldin busca evidenciar é a de que ocorreu mudanças significativas na oferta de trabalho feminina dos EUA, mesmo que não seja perceptível no simples cálculo da força de trabalho, e que não se pode afirmar que a chamada quarta fase persiste ou se encerrou neste início de século XXI (o trabalho é de 2006).

Ela aponta para possíveis causas dessa denominada revolução. As coortes que começaram a participar mais do mercado de trabalho durante a terceira fase ainda não estavam totalmente preparadas para carreiras profissionais duradouras, mas as gerações seguintes foram inspiradas por estas pioneiras e aumentaram suas expectativas de emprego ainda jovens. Houve um aumento da idade mediana de casamento das mulheres dos EUA, além de um aumento no número de divórcios – ambos fenômenos implicaram em uma maior autonomia das mulheres sem cônjuges. Por fim a autora destaca a difusão da pílula anticoncepcional, que permitiu às mulheres terem um maior controle sobre seu risco de gravidez. Estes três fenômenos permitiram a chamada revolução silenciosa do gênero feminino no mercado de trabalho, segundo Goldin.

A abordagem de Claudia Goldin ganha um peso adicional muito interessante ao ser realizada, em paralelo com a  história do mercado de trabalho feminino, a análise da história da própria disciplina de economia do trabalho. Goldin argumenta que o estudo de teorias de economia aplicadas ao mercado de trabalho foi bastante enriquecido na medida em que economistas passaram a tentar explicar justamente o fenômeno de alterações do trabalho e renda das mulheres nos EUA e Europa. Ela cita Edith Abbott e Richard T. Ely como pioneiros na economia do trabalho concomitante com a primeira fase; Paul H. Douglas e Erika . Schoenberg e seus estudos de função de oferta durante a segunda fase; Clarence Long, Jacob Mincer, Gary Becker seriam os destaques na terceira fase; e na quarta fase ela foca mais em relatar o questionamento da comunidade acadêmica quanto à possível estagnação da evolução do mercado de trabalho feminino, concomitante com uma maior disponibilidade de dados e pesquisas capazes de explorar novos indicadores de economia do trabalho a partir inclusive de coortes, mesmo que sintéticas.

Trata-se de uma revisão bibliográfica, cujo conhecimento prévio de economia exigido se limita a alguns conceitos fundamentais como função de oferta ou de demanda por trabalho; elasticidade; efeito renda e efeito substituição, não havendo uma modelagem ou tratamento estatístico específicos para seres estudados. É um texto voltado para economistas que estudam discriminação e mercado de trabalho, mas que também pode ser aproveitado em outras áreas como a demografia e estudos sociais de gênero.

O leitor deste working paper encontrará um bom sumário descritivo de toda uma evidência histórica de um dos temas mais relevantes da atualidade. E uma vez que parte do texto foge um pouco da forma tradicional dos economistas de tratar de assuntos como função de oferta e demanda, ou mesmo de escolhas e capital humano, é uma adição fundamental para quem quer se se iniciar neste assunto.

Por fim, no texto Claudia Goldin chega a parafrasear o autor Richard T. Ely quando ele comenta que “Revolutions do not go backward” (“Revoluções não voltam para trás”), comentando otimista que, na visão dela, há pouca evidência de que esta revolução tenha regredido, pelo menos até o momento.

¹ As definições dos termos cunhados, tanto “evolucionary” quanto “revolutionary” são estabelecidas pela própria autora.

Igor Coura de Mendonça é graduado em Administração Pública na Escola de Governo da Fundação João Pinheiro, possui especialização em Poder legislativo e políticas públicas pela Escola do Legislativo da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, e atualmente é mestrando em demografia na UFMG.

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