Um problema recorrente na ciência da demografia é a falta de teorias gerais. Em parte, isso tem explicações na própria formatação da ciência: a demografia é uma ciência social e, como tal, possui fortes limitações para análises experimentais e empíricas. Além disso, os demográficos são cientistas excepcionalmente atentos à qualidade dos dados e dos métodos utilizados: são bastante conscientes da dificuldade de se obter dados acurados, e se preocupam muito com os limites de generalizações, de projeções e de cálculos indiretos. Por fim, a demografia é em essência interdisciplinar. Possui raízes na economia, na sociologia, na geografia, na medicina, na estatística e, portanto, possui uma gama de cientistas com epistemologias diversas, com diferentes preferências e desconfianças das várias metodologias empregadas… tudo isso joga contra a formação de consenso e, portanto, dificultando muito a formação de teorias gerais.

A demografia pode ser dividida em três grandes temas: mortalidade, fecundidade e migração. Aos menos os dois primeiros temas possuem a teoria da transição demográfica: seus corolários podem se alterar, mas ao menos existe um ponto focal de onde as discussões gravitam. Para um bom exemplo pode-se analisar o debate em torno da possibilidade de uma segunda transição demográfica, que possui uma boa revisão elaborada por um de seus criadores (LESTHAEGHE, 2010). A migração, infelizmente, nem uma teoria como a transição demográfica possui para conduzir seus embates acadêmicos.

Nesse sentido, grande parte dos trabalhos mais relevantes de migração acabam se limitando a análises empíricas. Felizmente, existem autores preocupados com o arcabouço teórico sobre migração, e dois deles merecem uma atenção especial. São os trabalhos “A theory of migration” de Everett S. Lee (1966) e “Theories of international migration: a review and appraisal” de Massey et al (1993). Com abordagens um pouco similares, ambos os trabalhos fazem uma meta-análise de outros estudos para então propor bases que, se aprofundadas, podem se tornar a formação de teorias gerais de migração.

Lee (1966) realiza uma revisão dos trabalhos empíricos de Ravestein de 1885 e 1889 na Inglaterra, que resultaram na formação das “leis de migração” propostas nestas publicações. A partir delas, Lee levanta algumas críticas dirigidas à Ravestein, mas, ao invés de simplesmente engrossar o coro das críticas, propõe extrapolar as leis para uma visão mais geral do tema. O autor então elenca uma série de hipóteses, formulada em três esferas: o volume de migração; a formação de correntes e contracorrentes; e as características da migração.

Já Massey et al (1993), escrevendo quase trinta anos depois, possui uma vasta literatura formulada a sua disposição para um trabalho mais completo. Também via revisão bibliográfica, os autores registram quais são as teorias vigentes mais relevantes para explicar padrões de migrações internacionais. Essas teorias podem ser classificadas em três perspectivas diferentes. A primeira é uma perspectiva de decisões centradas em nível micro, sendo a teoria econômica clássica focada em decisões individuais e a nova economia da migração focada em decisões familiares ou grupais. A segunda é uma perspectiva estrutural, contendo a teoria do mercado de trabalho dual e a teoria dos sistemas mundiais, ambas com uma abordagem sistêmica pesando mais do que decisões na ponta. A última perspectiva é sobre efeitos migratórios per se, como (1) a teoria das redes, que uma vez estabelecidas estimulam mais migrações até atingir um certo limite; (2) a teoria das instituições, que explica a formação de mercados e serviços ligados ao ato de migrar, sejam estas instituições legais ou não; e (3) a teoria das causas cumulativas, que analisa o ciclo virtuoso de migração que causa mais migração.

Inclusive estes dois trabalhos são interessantes porque trazem especificações de como trabalhar as teorias. Lee (1966) define hipóteses claras e falseáveis, que podem ser utilizadas em trabalhos empíricos posteriores, refutando ou ampliando a hipótese original. Por sua vez, Massey et al preveem métodos para testar as diferentes teorias enumeradas, discutindo seus potenciais e limites na elaboração de pesquisas com esse objetivo.

Ambos trabalhos são revisões bibliográficas, mas que funcionam de modo similar às meta-análises: publicações com o objetivo de agregar resultados e dados de outras publicações a fim de encontrar pontos divergentes e pontos comuns, indicando tendências e fortalecendo conceitos. No caso de Lee e Massey et al, suas obras não são conclusivas: eles buscam provocar novos estudos que se utilizem de seus trabalhos para avançar no debate. Eles advogam para a possibilidade de uma teoria unificada que até os dias de hoje, em 2019, não deu sinais dentre o meio acadêmico da demografia.

A Importância da revisão bibliográfica neste assunto está clara. Ela ajuda a formular arcabouços que podem ser testados e aprimorados. Dada a complexidade e a interdisciplinaridade da ciência demográfica, há pouca conversa entre autores de diferentes cadeiras. Nesse sentido, a importância das meta-análises de resultados empíricos aumenta, o que até já é de certa forma algo comum na demografia, por exemplo, acerca de estudos sobre países africanos subsaarianos, dada a falta de dados de qualidade e a necessidade de se utilizar as pesquisas DHS fragmentadas pelo continente. Pode até ser o caso de que não haja uma unificação teórica para a migração, mas a partir de estudos empíricos pontuais, especialmente se forem muitos e razoavelmente similares, será possível fazer inferências mais confiantes sobre padrões mundiais, como já ocorre na medicina e na biologia, por exemplo. Como uma ciência aplicada, a demografia tem muito a aprender com seus pares mais tradicionais.

Um caso recente de uso interdisciplinar de demografia para tentar criar uma teoria geral aconteceu no campo da economia, com Oded Galor (2011) utilizando os modelos de Malthus e de Boserup, em conjunto com teorias e métodos de outras áreas, como por exemplo a hipótese de que o tempo decorrido entre a revolução neolítica e o início do desenvolvimento regional (DIAMOND, 1999), para formular uma teoria unificada de crescimento econômico. Ou seja, Galor (2001) tomou emprestado teorias da demografia para formular uma grande teoria econômica.

Seria possível que demógrafos façam o mesmo?

Referências bibliográficas

DIAMOND, Jared; ORDUNIO, Doug. Guns, germs, and steel. Nova Iorque, Nova Iorque, EUA: Books On Tape, 1999.
LEE, Everett S. A theory of migration. Demography, [s.i.], v. 3, n. 1, p.47-57, 1966. Disponível em: https://link.springer.com/article/10.2307/2060063. Acesso em: 30 out. 2019.
LESTHAEGHE, Ron. The Unfolding Story of the Second Demographic Transition. Population And Development Review, [s.l.], v. 36, n. 2, p.211-251, 16 jun. 2010. Wiley. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1111/j.1728-4457.2010.00328.x. Acesso em: 30 out. 2019.
MASSEY, D S et al. Theories of international migration: A review and appraisal. Population And Development Review, [s.i.], v. 3, n. 19, p.431-466, 1993. Disponível em: http://bit.ly/2PApllp. Acesso em: 30 out. 2019.
GALOR, Oded. Unified Growth Theory. Princeton, Nova Jérsei, Eua: Princeton University Press, 2011.